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O circo

Segundo rumores que circulam na egitana, estão em curso grandes cozinhados ao mais alto nível, de modo a colocar na administração da CulturGuarda um prometedor gestor comercial, com vasta experiência na...Loja do Concelho. Ao que parece, o apelido sonante terá contado muito na escolha. Velhos hábitos de sucessão dinástica, de fazer corar um verdadeiro monárquico. Todavia, é lícito concluir que uma mudança de rostos traga consigo uma alteração de prioridades ao nível da politica cultural local. As provas estão à vista: ao mesmo tempo que é abandonada a conclusão da construção da nova biblioteca municipal, é promovido o cantor pimba Luís Filipe Reis como símbolo oficial da cidade. Prepara-se pois o abandono de um projecto que em 20 anos colocou a Guarda no roteiro cultural nacional, como referência e exemplo do aproveitamento das valências locais, combinadas com uma programação ambiciosa e exigente. Que, para além da diversidade das propostas, foi criando e fixando públicos, reconstituiu a memória local e criou uma mais-valia estratégica para a região. Um conjunto de manifestações culturais duradouras e bem planeadas representa, para qualquer cidade que se preze, uma efectiva condição de desenvolvimento a todos os níveis, e favorece a criação de uma certa imagem de marca da localidade. Não acredito que esta viragem de rumo seja unicamente explicada pela insensatez, pelo mau gosto, pela ignorância, ou pela contabilidade do curto prazo. A razão é fundamentalmente política. Ou, se se quiser, eleitoralista. Pão e circenses: a receita que continua a fazer milagres. Mesmo com algum Doutor Fausto pelo caminho a remoer a consciência.
Devo dizer que tive oportunidade de conhecer a Guarda em momentos distintos. Para o que aqui interessa, senti na pele a cidade, quando a opressão moral, social e clerical, herança do salazarismo, era um manto de estupidez castradora, que obrigou os inconformados de duas gerações a buscar outras paragens. Talvez porque, simultaneamente, inspirava o doce sabor da transgressão criadora. Alguns, muito poucos, ficaram, resistiram e conseguiram inverter as regras. Mesmo errando, o medo de não errar nunca suplantou o receio de assumir os próprios erros.
Tudo se prepara pois para que nos próximos tempos os números triunfem em toda a largura de banda. É previsível que quem quiser comprar um livro ou um CD - não disponíveis nas grandes superfícies - terá que se deslocar a Salamanca, a Coimbra, ao Porto ou a Lisboa. Quem quiser assistir durante o ano a algum espectáculo com alguma qualidade, ou fora dos circuitos habituais, passará a ter que fazê-lo obrigatoriamente, se o desinvestimento no TMG se concretizar. Como sempre, vai valer o espírito de procura de quem não se conforma com a hegemonia do maistream. Falo por muitos, acreditem.
A opressão que mencionei teve consequências devastadoras para o desenvolvimento da cidade, mas os efeitos do triunfo do populismo que se avizinha irão ser muito muito piores. A prová-lo, são suficientemente elucidativas as inenarráveis condutas de esgoto plantadas na Praça Velha a fazer de vasos para árvores. O erzatz de um tempo.

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